Pergunta 1
O que o original quer que a pessoa sinta? (Não: o que ele diz.)
Este é um guia vivo. Ele não fala sobre a voz do adidas Running. Ele fala com a voz do adidas Running. Se, ao ler, este guia te acompanhar, te motivar e te respeitar, é porque o briefing está funcionando em você agora mesmo. Aprenda vivendo.
A maioria dos guias descreve um tom e torce para você acertar. Este aqui faz diferente: ele te coloca dentro do tom. Toda frase desta página foi escrita do jeito que o app deveria falar com quem corre: direta, calorosa, no presente, te tratando por você. Quando terminar, você não vai ter lido sobre a voz da marca. Você vai ter vivido ela.
Complementa, não substitui, as Global adidas Running Guidelines (EN). O que está aqui é como os princípios globais ganham corpo, sotaque e calor em português do Brasil.
Sua fidelidade não é às palavras do original.
É à sensação que elas provocam.
Quem corre em Realengo, na orla de Copacabana, no Ibirapuera antes do trampo ou numa rua de terra do interior precisa sentir a mesma coisa que o original quis provocar: energia, cuidado, parceria. As palavras mudam. A emoção, não.
Esta é a regra que não admite exceção. Nunca use texto em português europeu como base, nem como rascunho nem como inspiração. O português do Brasil é mais informal, mais quente e cerca de 20–25% mais longo que o inglês. A forma de tratamento é sempre você. Nunca tu. Nunca vós.
Tradução protege as palavras. Transcriação protege a sensação. A sua tarefa não é levar o inglês para o português intacto. É fazer quem corre no Brasil sentir, na pele, exatamente o que o original quis provocar. Às vezes isso significa traduzir. Muitas vezes significa recriar do zero. Quase sempre significa ter coragem de se afastar do texto-fonte para chegar mais perto da pessoa.
Pense assim: o original é a intenção, não o roteiro. “You crushed it!” não pede a palavra “crushed”. Pede a explosão de orgulho de quem acabou de fechar uma corrida. Sua missão é entregar essa explosão, com as palavras que nós usamos quando estamos orgulhosos.
Algumas expressões não têm equivalente no dicionário. Elas carregam emoção, não significado literal. Traduzir palavra por palavra entrega algo correto e morto. Aqui o ofício é achar o reflexo cultural: que situação da vida brasileira provoca essa mesma emoção, e que palavras a gente usa nela?
A transcriação mais forte não traduz a frase. Ela devolve a frase para dentro de um ritual que a pessoa já sente.
No Brasil, o futebol é a língua universal da motivação. “Vai que é sua” funciona porque chega como um companheiro gritando do campo, não como um slogan. É a régua mais alta do ofício: antes de traduzir uma expressão, pergunte qual momento da vida brasileira (a pelada, a torcida, o churrasco, a praia, a família na porta de casa) provoca essa mesma emoção. Depois, pegue a linguagem de lá. Esse é o salto que separa quem traduz de quem transcria.
O que o original quer que a pessoa sinta? (Não: o que ele diz.)
Como uma pessoa que corre no Brasil diria isso de verdade para um amigo?
Cabe na tela, no momento certo, no clima certo? Contexto é tudo.
Se eu lesse isso ofegante, no fim da corrida, me daria vontade de continuar?
Transcriar é ter a coragem de se afastar do original para chegar mais perto da pessoa.
O adidas Running vive no celular, na mão de alguém em movimento. Às vezes correndo, com o sol batendo na tela. Frase curta. Mensagem clara já na primeira linha. Nada de rodeio. Veja a mesma tela traduzida de dois jeitos:
A velocidade média atual está dentro da faixa considerada adequada para os parâmetros definidos.
Ótimo ritmo. Continue assim. 💪
O app acompanha, não comanda. Cada característica abaixo é uma escolha, e cada escolha você acabou de sentir nas frases anteriores deste guia.
Energia que a pessoa acredita. Sem promessa que o corpo não vai cumprir.
Vai ao ponto sem ser seco. Calor humano em cada toque.
Empurra com firmeza, nunca grita. Confiança, não euforia.
A corrida no centro. A marca aparece servindo a pessoa, não se exibindo.
A tecnologia só entra na frase quando melhora a corrida de quem lê. Traduza a engenharia em experiência.
Quem corre no Brasil responde a progresso pessoal, regularidade e ao prazer de correr, e responde principalmente à turma. À corrida de domingo na orla, ao pace group do Ibirapuera, ao grupo do bairro que se espera no farol. Não responde a competição agressiva nem a promessa inflada. A comunidade adidas Runners é o coração disso. Convide. Nunca cobre.
Um dado vira valor quando responde à única pergunta que importa para a pessoa: “e o que isso muda pra mim?” Interprete o número. Conte a história dele.
Distância total registrada.
Mais que na semana passada. Tá voando! 🚀
Neutralidade de gênero não é uma camada de inclusão que você passa por cima do texto no fim. É o jeito padrão de escrever para o adidas Running em português, e este guia inteiro foi escrito assim. Repara: até aqui, nenhuma frase pediu que você fosse de um gênero ou de outro. Isso não foi sorte. Foi ofício.
O português marca gênero em quase tudo, e cada marcação é uma escolha que exclui metade de quem lê ou força uma gambiarra que o leitor de tela não entende. A solução premium não é decidir entre “bem-vindo” e “bem-vinda”, nem inventar “bem-vind@”. É reescrever para que a pergunta nunca surja. Quase sempre dá. Quando não dá, há uma ordem de preferência clara abaixo.
O verbo raramente concorda em gênero. “Você correu 8,2 km” serve para todo mundo, sempre.
Comando direto não tem gênero. “Comece a corrida”, “Veja seu histórico”.
Troca o substantivo gendrado. “Os corredores” → “quem corre com a gente”.
Apoie-se em a turma, o time, a comunidade, a galera, pessoas, a gente.
Nominalize a ação. “Seja bem-vindo” → “Boas-vindas”. “O corredor pode acessar” → “Acesse”.
Particípio concorda em gênero. “Está pronto?” → “Tudo certo?” / “Partiu?”.
Quando a neutralidade total não couber, siga esta ordem, de cima para baixo:
Sempre primeiroAceitável, com parcimôniaEvitar, exclui na práticaNunca, leitor de tela lê “arroba” / “xis”Não em app por ora, ainda não padronizado{nome}) pode ser de qualquer gênero. Por isso a frase ao redor dele tem que ser neutra. “{nome} está pronto?” quebra para metade das pessoas. “{nome}, vamos?” funciona para todas. Mais sobre isso a seguir.Nunca copie o Title Case do inglês. Your Training Plan não vira “O Seu Plano De Treino”. Vira “Seu plano de treino”. Sentence case manda.
janeiro fevereiro marçosegunda-feira terçaverão invernoComeçar a corrida Ver históricoSua semana de treinoQuando algo dá errado, quando a tela está vazia, quando a pessoa chega pela primeira vez, é aí que o tom mais importa. Nunca culpe a pessoa. Nunca a deixe sem saída. Mantenha o calor.
Respira, não pira e tenta de novo. 💪
Repara no que essa tela não faz: ela não vira piada às custas da clareza. O “Eita” aproxima, o “respira, não pira” acalma com bom humor esportivo, e o botão diz exatamente o que fazer em seguida.
Essa é a linha que você não pode perder: a personalidade entra a serviço da pessoa, nunca no caminho dela. Pode brincar, pode ter sotaque, pode ter ritmo de corrida. Só não pode deixar quem leu sem saber o próximo passo.
O Brasil tem uma das maiores taxas de uso de emoji do mundo. No contexto certo, o emoji reforça o lado humano do app. No contexto errado, vira ruído. A diferença está na disciplina.
Acessibilidade não é um extra. É parte do tom acolhedor. Escreva imaginando alguém usando o leitor de tela, no ônibus, sem olhar para o aparelho.
Linguagem clara: nível máximo B2 (QECR). Nada de jargão sem explicação. No máximo 15–20 palavras por frase na tela. Voz ativa sempre. Zero dupla negação: “Não é possível sem conta” vira “Entre para continuar”.
Leitor de tela: emoji nunca no meio da frase. Formas @ e x são lidas literalmente. Evite. Abreviações seguras: km m min. Todo elemento de UI precisa de rótulo em texto, nunca só ícone.
Lembre: +20–25% sobre o inglês. O espaço é caro. Corte tudo que não carrega a emoção ou a informação.
Hora de correr. Bora? (21)Começar (7), não “Iniciar uma nova sessão” (24)Início Histórico PerfilAlgo deu errado. Tenta de novo.Toda caixa de texto tem um limite físico. Quando a string passa do tamanho, o sistema não pede licença: ele corta, quase sempre com reticências no fim …, às vezes no meio de uma palavra. E como o português estica 20–25% além do inglês, o que cabia lá frequentemente não cabe aqui. Escreva sabendo que o fim da frase pode desaparecer.
O dado mais importante, o que você concluiu, ficou pro fim. E o fim sumiu.
A informação que importa vem primeiro. Mesmo cortada, a mensagem se entende.
O começo é o que sempre fica visível. Ponha ali o status, o número, a ação, nunca no fim, que é onde o corte come.
Negações, exceções e CTAs no fim morrem se a string for cortada. “Compartilhar, menos com…” perde justamente o limite.
Título costuma cortar em uma linha; corpo costuma quebrar em várias. Escreva diferente para cada um. Pergunte ao time de UX qual é o caso.
O texto visível pode cortar, mas o rótulo para leitor de tela deve ser sempre completo. Visual encurta; acessibilidade, nunca.
Placeholders são os pedaços que o app preenche sozinho na hora: o nome de quem corre, a distância, o número de dias. Aparecem assim: {nome} {distancia} %s %1$d. Aqui mora o erro de localização que mais derruba app em produção. Quase todo ele se evita com seis regras.
O nome da variável é código puro. Traduzir impede o app de preencher.
{distance} continua {distance}, nunca {distância}
A sintaxe do PT-BR é outra. O token pode e deve mudar de posição na frase.
EN “{count} km left” vira Faltam {count} km
O valor de {nome} pode ser de qualquer gênero. A frase em volta tem que servir a todo mundo.
{nome}, bora? em vez de “{nome} está pronto?”
O número muda a palavra. Use as formas de plural do sistema, nunca “(s)”.
1 corrida · 5 corridas
PT-BR usa vírgula decimal e ponto de milhar, com espaço antes da unidade.
8,2 km · 1.250 m
Ordem e concordância variam. Concatenar fragmentos quebra a frase.
Peça a string inteira, com o token dentro
No e-mail você ganha espaço, mas não ganha licença. A pessoa decide em dois segundos, quase sempre no celular, com metade das imagens bloqueadas. Cada elemento tem que carregar a mensagem sozinho, e são muitos: remetente, assunto, preheader, hero, corpo, botão, rodapé. Veja a anatomia inteira, com a voz da casa.
A união faz
a força.
Tem corrida em grupo no parque neste sábado, às 7h. Sem ranking, sem pressão. Só a turma, o ritmo de cada um e aquela energia boa de começar o dia em movimento.
AçãoVocê recebe este e-mail porque faz parte da comunidade adidas Runners. Gerenciar preferências · Descadastrar
O e-mail engana: parece que você tem espaço infinito. Mas o assunto compete na caixa de entrada, o preheader some se você não escrever um, e as imagens podem nem carregar.
Por isso a régua é a mesma do app, só que com mais peças: uma ideia, uma ação principal, e cada elemento entregando sentido mesmo isolado dos outros. Repare como as quatro frases da casa se encaixam em zonas diferentes sem forçar nada.
Nome reconhecível, “adidas Running”, nunca “no-reply”. É o primeiro filtro de confiança, antes mesmo do assunto.
Cerca de 35 a 40 caracteres: o celular corta o resto. Emoção e informação na frente. Emoji opcional, só no fim.
O texto de preview ao lado do assunto. Complementa, nunca repete. Se ficar vazio, o cliente puxa o começo do corpo, quase sempre feio.
Uma frase, grande, que entrega a emoção. É o que segura a pessoa depois que ela abriu. Movimento, união, progresso.
Uma ação clara por e-mail, verbo na frente, botão com pelo menos 44px de altura para o dedo. Secundários sempre em menor destaque.
Toda imagem precisa de texto alternativo. Muita gente abre com imagens bloqueadas, e o leitor de tela depende disso. O e-mail tem que se entender só no texto.
Saída clara e honesta (exigência legal), mais gerenciar preferências, endereço e redes. Nunca esconda o link de descadastramento.
Uma coluna, fundo que não some no escuro, fonte legível. Teste no Gmail, Apple Mail e Outlook: cada um renderiza diferente.
Três telas prontas, do jeito que devem soar quando a transcriação acontece de verdade. Não são pares de antes e depois: é a voz da marca em ação. Leia cada uma em voz alta e escute a diferença entre um app traduzido e um app que corre do seu lado.
seu melhor tempo do mês
Montamos o plano perfeito pra sua corrida.
Nenhuma string está pronta no momento em que você a escreve, só quando você a vê viva, na tela, na mão de alguém. O texto que parece perfeito na planilha pode truncar, soar frio ou quebrar o layout no aparelho. Por isso a localização não termina na entrega: ela termina depois do teste. E mesmo aí, continua melhorando.
Contexto é tudo. Revise sempre na interface real: a mesma frase muda completamente dentro de um botão, de um push ou de um título.
Antes mesmo de traduzir, infle o texto em +30% e encha de acentos. Os layouts que vão quebrar aparecem cedo, quando ainda é barato consertar.
Percorra cada tela num celular de verdade, inclusive num Android antigo e pequeno, no modo escuro e com a fonte do sistema aumentada.
Leia a frase em voz alta. Se soar robótica, traduzida ou estrangeira, ainda não é a voz do Brasil. Reescreva.
Revisão não é só do time de idioma. Mostre para alguém da comunidade adidas Runners. Soa como a turma fala? Dá vontade de calçar o tênis?
Teste o nome mais longo, o estado vazio, o erro, e o plural nos limites: 0 1 2 1.000.
O teste devolve uma lista de sinais. Cada sinal tem uma ação clara:
E quando o app já está no ar, o trabalho fica mais interessante: agora os dados respondem. Tap-through nos CTAs, conclusão do onboarding, opt-in de notificação, taxa de compartilhamento. O texto que você escreveu era uma hipótese sobre o que motiva quem corre. As métricas dizem se você acertou, e o teste A/B deixa você comparar duas versões e deixar a pessoa decidir, no próprio comportamento, qual fala mais alto.
Toda correção recorrente volta para cá.
Este guia é vivo no sentido literal: quando um padrão de erro aparece no teste ou no dado, ele não vira só um conserto pontual. Vira uma regra nova aqui dentro, um exemplo no glossário, uma decisão que a próxima pessoa não precisa repetir. Localizar bem é, no fundo, transformar aprendizado em método. Aprenda vivendo. E depois, ensine vivendo.
Marque cada item. Se algum ficar em branco, ainda não terminou.